Bielorússia: sobre a vida dos presos que aguardam a deportação

alkatras-0010 Traduzimos este relato duro e extremamente forte feito por um ex-detento que esteve preso com imigrantes que aguardam a deportação da Bielorússia. São descrições fortes que falam de condições absurdas de tortura nas prisões deste país. Sabemos que a realidade dos presídios no Brasil não são melhores e que toda cela é um instrumento de tortura e que todo preso do capital é um preso político.  Por isso, toda a nossa solidariedade e nosso apoio! Pelo fim das prisões, pelo fim do Estado!

Bielorrússia: sobre a vida dos que aguardam a deportação do país

Recentemente, eu tive que passar 20 dias numa prisão bielorrussa. E lá eu conheci pessoas, cidadãos de outros países, que aguardavam lá a deportação. Vou começar com o fato de que quase todas estas pessoas sofreram alguma violação durante a prisão. Por exemplo, um georgiano teve que passar duas noites no “vidro” sem comida. O mantiveram lá até o final do prazo de registro, e depois formalizaram a prisão.

Ele estava doente com hepatite VC , na sua perna havia uma placa metálica, mas os “vermes” não deram qualquer atenção a isso. Não pediram para ele uma dieta especial, o que provocou o agravamento da hepatite e uma dor permanente. A placa da perna deveria ter sido tirada três dias após a prisão, na Geórgia, onde ele foi registrado na recepção pelo médico. Ele sofria com dores constantes a cada passo, e em vez de receber medicação para a dor, muitas vezes deram-lhe aspirina. Ele foi mantido preso por 26 dias e, em seguida, deportado.

As pessoas ficavam lá sem obter qualquer resposta. Isto é, absolutamente isoladas, sem o direito à qualquer telefonema. As alimentam com promessas e falam para “escrever declarações”, mas não há nenhuma resposta para elas, eles escrevem dezenas delas e nada acontece. Os cônsules não estão preocupados com eles, aparentemente. Nem vinham. Lecha Morozov, da região de Yaroslav, está lá há três meses, escreve comunicados, pelos quais não recebe respostas. Prometeram liberá-lo em um mês. Durante este tempo, intensificou-se sua neurose, e ele literalmente “enlouqueceu”. Mas os policiais não se importaram. Parace, ainda, que os “vermes” tentam usá-lo como informante, com a promessa de rapidamente o enviarem para casa. Canalhas, para assim dizer.

Os prazos são diferentes. Alguns são deportados dentro de um mês, outros ficam presos de 7 a 9 meses. Patrick, da República Democrática do Congo, está na prisão a cerca de seis meses. Ele não fala russo, sabendo apenas o francês. Não lhe deram nenhum intérprete, obviamente. Ele é um veterano de uma guerra permanente, travada no Congo por corporações globais. Ele foi ferido várias vezes. Ele veio à Minsk para frequentar a universidade, matriculou-se num curso… mas o embaixador de sua república “democrática” o chamou e disse que ele deveria lutar novamente. Ele quebrou passaporte e recusou. Ele tem, claramente, problemas – ele não fala, não se limpa, mal come, e quando ele ouve seu sobrenome claramente estremece. Algumas vezes o colocaram na “andorinha”. Ele senta-se sozinho e frequentemente chora de desespero.

A maioria dos imigrantes que estão na cadeia foram enganados. Muitos foram para a Bielorrússia porque os anúncios na internet prometiam salários de 1 até 3 mil dólares… Uma destas pessoas, com quem eu estive, veio com o registro do empregador, mas depois teve que entregá-lo para os “vermes” para não pagar. Outro cara foi enganado pelo reitor da universidade onde ele estudou, que tentou fazê-lo pagar por um semestre à frente. Ele não tinha os 1500 dólares a mais e foi para a cadeia por um mês.

Os “vermes” frequentemente os enganam. Dizem que eles não relatam as doenças; ameaçam; prometem que entrarão em contato com a família e não fazem; roubam o dinheiro. Pegam dinheiro de muitos imigrantes. Simplesmente não os descrevem sob diversos pretextos. É também uma prática bastante comum obrigar a compar um bilete para outras pessoas, para as quais o Estado não quer alocar o dinheiro. Sobre as doenças – quase todo mundo que esteve preso comigo tinha uma doença que exige tratamento. Suspeita de tuberculose, hepatite , cálculos renais, que realizaram operações pesadas…

Em geral, isso é tudo o que eu queria compartilhar. Ressalvo que as condições dos presos que aguardam a deportação da Biolorússia é uma merda completa. Eles são enganados, isolados de tudo, não recebem visitas e correspondências, vivem apenas sozinhos com a esperança de voltar para casa. E isso é feito assim: a porta da cela se abre (geralmente na parte da manhã), com as palavras – “com as coisas na saída”. Eles não recebem qualquer aviso anterior. Normalmente, eles não acreditam que estão indo para casa, acham que estão sendo transferidos para outra cela. Longo caminho para casa….

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