Carta de uma professora de luta à luta

DSCN1140 Compartilhamos abaixo um texto de uma militante do GEP e da OATL às companheiras e companheiros educadores, que estiveram conosco nas greves de 2013 e 2014, e que por algum momento se cansaram, se abateram, mas que preservam no seu corpo a verdade da luta e o sonho do futuro justo.

“Às guerreiras e guerreiros da educação,
Eles nos bateram, nos prenderam, arrastaram e tacaram bombas. Mas seguimos de pé! Alguns de nós cansados, desacreditados. Outros com medo, pensando em cuidar um pouco mais de si frente à tamanha repressão e falta de esperança, mas todos seguimos. Seguimos reclamando com os companheiros, na sala de professores, sobre a postura ditatorial da direção não eleita. Seguimos reclamando das nossas jornadas de trabalho e das cobranças que fazem sobre nós para preenchermos relatórios imensos de reprovação e lançamento de notas em sistema que vive a cair. Seguimos tristes, acreditando que educar é fundamental para emancipar pessoas, mas vendo, diante de nós, condições precaríssimas para tal, cortes dos baixos salários que temos. Nossa vida já é tão dura que parece que acreditar na educação é a utopia mais rala que ainda nos resta. Quinhentos pedidos de exoneração em um mês, só na rede estadual, não se deu a toa. De fato, vivemos em tempos difíceis, em tempos em que o governo nos fomenta descrença e muitos de nós, com fome, a consome. Mas o que fazer quando as contradições entre os nossos sonhos e a violência repressora do Estado é latente por demais? Quando tudo aquilo que acreditamos parece ser colocado em jaula, dia após dia, pela surra das medidas arbitrárias de um governo ditatorial? Pois proponho, primeiro, o exercício de reflexão sobre como te tornastes um/uma educador(a). Se acreditavas que seu papel é transmitir os conhecimentos contidos nos ilustríssimos livros feitos por homens brancos das universidades europeias, te digo que pretendes reproduzir a situação de dominação vigente na sociedade, tal qual ela já é, e que, portanto, deves ficar a vontade para seguir por outros caminhos. Aos que acreditam que, na educação pública, com os alunos e alunas negras, faveladas, mães, trabalhadoras, podemos promover a emancipação sobre o pensar e agir, e promover, finalmente, o empoderamento popular, digo e sublinho que estamos juntxs incondicionalmente. Falo para estes, e ratifico, ainda, que isso não é e jamais será utopia. Isso é processo de construção constante, compartilhado e concreto. É processo de olho no olho, contido no cuidado sobre cada palavra e cada gesto, tão adestrado ao longo da nossa socialização para reproduzir hierarquias de poder. Dessa forma, diante da importância da clareza e da crença que cada um traz consigo como motor de si mesmo, proponho o segundo exercício de reflexão: em tendo optado por resistir ou subverter à educação tradicional e meritocrática que nos é imposta, pensastes que não encontrarias coerção estatal? Pensastes que não haveria enfrentamento duro diante da subversão de uma ordem que deseja massacrar o pobre para garantir o lucro? Ao nos colocarmos nas ruas, educarmos pela luta, é preciso ter a clareza, e jamais a inocência, da dura repressão que sempre nos aguardou ao longo dos séculos dos séculos. Porque assim é o modelo de proteção dos interesses do capital: a quem diverge, a cadeia, a porrada ou a morte, mas aos que concordam, o 14º salário, o aperto de mão e o parabéns, e aos que ficam em cima do muro, a eterna lamentação vazia, o arrependimento e a conivência com o apanhar alheio. Podes não ter clareza, mas fizestes uma opção sobre o lado em que te encontras, numa luta entre opressores e oprimidos, e esta escolha requer não só amor, mas também visão estratégica e força, combustível para se manter na luta mais cotidiana. Sobrando-te a primeira, te formando com a vida para a segunda, proponho o terceiro e último exercício: olhas para aquelx que te acompanhou, passo após passo, dia após dia, apesar de todos os pesares, no asfalto da rua que era sonho nosso, e enxergas nelx os mesmos sonhos que os teus, as mesmas vivências, mesmas angústias, que, somente de braços dados podem ser superadas, e de nenhuma outra forma mais. Se é estratégica, portanto, a unidade da nossa luta no momento de dura perseguição política que estamos sofrendo, é fomento para a força e vida, a solidariedade, a confiança e o comprometimento entre nós. Confesso que escrevo esse texto justamente para companheiros tão maravilhosos que tenho sentido falta ultimamente, não só pela sua militância, mas pela sua maneira de ser mesmo, sempre tão sinceramente especial. Talvez não caiba mencioná-los nominalmente, mas saberemos sempre da voz que nos cantou por tanto tempo “bandido”, e das falas sempre tão repletas de sentimento e revolta de quem trabalha há anos enquanto educadora e não aguenta mais “abaixar a cabeça” para governos silenciadores da revolta popular. Daquela que se envolveu pela arte e pela vida no movimento, e de tantos e tantas outras que deixaram suas marcas em nós e as quais merecem toda a nossa, aos que permanecem a lutar apesar do medo imposto, atenção, carinho, solidariedade e companheirismo. Nossa força reside nisso, companheirxs. Na habilidade mais determinada em não deixar ninguém para trás! Tenhamos atenção a este fato! E a nossa resistência, agora aparentemente fragilizada diante da baixa reação popular, persistirá fundamentalmente no chão de cada escola, na vida de cada vida diante de nós, no remexer de cada indignação, para um dia entornarmos de gente as nossas ruas novamente, gritando com as vozes que serão só suas, sem dependência ou dominação, a cantar em mesmo coro organizado a revolta dxs expropriadxs da liberdade. Lembremos para sempre dos fatos históricos. Das nossas jornadas de outubro. Mas lembremos sobretudo das pessoas, e eis o fundamento daquilo que nos move e também daquilo que nos propomos a fazer”.

(Rebeca, dia 01/10/2014)

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