JUSTIÇA NÃO SE CONFINA: Liberdade para Caio, Rafael e Fabio.

10615637_790066297710387_9188616660563820982_n O silêncio sobre a prisão de Caio Silva e de Fábio (Fox) é tão assustador quanto o silêncio em relação ao caso Rafael Braga, que durou meses. Só que num sentido, este primeiro silêncio consegue ser ainda mais terrível, pois ele evidencia o que a própria esquerda estatal pensa. A esquerda legalista, além de todos os seus preconceitos de classe que derivam da identificação da classe operária como o sujeito histórico e o lumpemproletariado (os miseráveis, desempregados, catadores de papel, sem-tetos como Rafael) como uma presença desagradável e potencialmente (sobretudo) reacionária, é adoradora do Estado, servidora do Estado. A esquerda legalista é punitiva, penal e confia e defende um dos seus principais mecanismos de aplicação da ordem e da violência: a prisão. Acreditam no encarceramento como forma de justiça. Acreditam em grades como pena.
Por qual motivo não vemos esta esquerda, que luta pelo fim do capitalismo e das opressões, defender a liberdade de Caio e Fábio? Os dois eram jovens e trabalhadores. Fabio era suburbano, trabalhador autônomo e Caio “era só mais um silva”, morador da baixada fluminense, servente num hospital, trabalhador filho de uma empregada doméstica desempregada que morava num sub-cubículo alugado. Pagava aluguel. Pegava ônibus, trem. Queria moradia, queria casa, queria abaixar as passagens, como todos nós que pegamos ônibus todos os dias. Foi vítima da violência do estado por todos os momentos de sua vida, pois desde a barriga da sua mãe viveu as agressões que o Estado e as classes que clamam pelo cárcere dos mais pobres praticavam contra a sua mãe, mulher negra e pobre, e contra a sua classe e cor. Estudou em escolas do estado, depósitos violentos de crianças pobres e de exploração de trabalhadores mau-remunerados. Depois trabalhou como servente, ganhando uma miséria, num hospital do estado, onde viu todos os dias como este mata gente da sua pele, como para este estas vidas não tem valor. Começou a ir para as ruas pois buscava justiça. Escrevia em cadernos cartas onde falava em revolução e numa sociedade nova onde os mais humildes, como ele, se libertariam de seus opressores. Numa manifestação contra mais um aumento das passagens de trem e ônibus, já havia se cansado de apanhar calado de policiais e decidiu se defender caso o Estado o agredisse mais uma vez. Como jovem negro, conhecia bem a polícia e sabia como ela agia, como ela é cruel sem precisar se justificar. Estava na passeata, como qualquer um, de forma pacífica e assim ficaria, como na outra que esteve, caso a polícia não reprimisse os direitos das pessoas de condenarem o absurdo. Mas a polícia é polícia e dentro da central do Brasil começou a atirar bombas. Várias senhoras, idosos, passaram mal. Ele também passou mal. Do lado de fora, usou um artefato pra se defender da violência policial que havia tomado a central e já havia causado a morte de um camelô por atropelamento. Agindo de modo impulsivo e equivocado, usou um morteiro que tinha como intenção, apenas, afastar os policiais que agrediam os manifestantes, mas este, que é comprado em qualquer loja de fogos e usado por vários torcedores em jogos, escorria de um modo como não imaginavam e atingiu um cinegrafista, num acidente. Este nunca teria morrido caso estivesse devidamente equipado e com condições de trabalho oferecidas pela empresa onde trabalhava (Bandeirantes), caso a polícia não tivesse soltado bombas dentro da central do Brasil.

Um acidente aconteceu. Erros aconteceram. A imprensa clamou por sangue, exemplos, e Caio e Fábio já passam mais de 6 meses encarcerados e isolados da “sociedade” como se fossem inimigos, perigosos para esta. Marcelo Freixo, inserido nas manipulações da mídia, expressou o que o seu campo pensa: foi um homicídio e ele deve ser julgado por isso.
Muitos irão discordar da não-responsabilidade ativa de Caio e Fabio na morte de Santiago. Dirão que eles são os responsáveis e não a polícia e a Bandeirantes. Mesmo que assim seja, que assim pensem, ainda há outra questão: é preciso encarcerá-los, colocá-los entre os 600 mil presos atrás das grades, inutilizados, silenciados, oprimidos, sufocados, para que a sociedade se sinta segura? A única pena possível é a cadeia, o confinamento?

Tolstoi, no seu romance “ressurreição”, escreveu pela voz de seus personagens que a cadeia tinha como único fim a punição dos que já foram punidos anteriormente pela justiça e pelo Estado, por sua condição de vida, e que de alguma forma ameaçavam esta ordem estabelecida.
Para isso serve a prisão. E quem manter-se silenciado sobre o fato de milhares de pessoas estarem presas porque cometeram pequenos furtos, roubos, por terem histórico de desemprego, por venderem e usarem drogas, por não serem atendidos por um sistema de saúde pública, por terem sido vítimas de racismo e brutal exploração, por serem filhos de outros presos e mortos pelo Estado e por tudo isso não quererem ser “mais um josé” que passa fome e dor longa, ainda que por estes caminhos, nunca poderá falar de justiça ou possibilidade de justiça. Quem defende o nosso sistema carcerário preserva o que esta sociedade tem de mais cruel e horrível: a cadeia.

Liberdade para Caio, Fabio e Rafael.
Justiça não se confina!!!

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