«Meu corpo, minhas regras!». Nota sobre o desaparecimento de Jandira Magdalena dos Santos

Desaparecida desde o dia 26 de agosto, a trabalhadora Jandira Magdalena dos Santos parece ser mais uma vítima do Estado, mais uma mulher que, não tendo acesso aos procedimentos seguros de um aborto legalizado, público e de qualidade, entra para a ficha obscura de vítimas do descaso do Estado, uma lista sem dados precisos – pois até morrer nessas condições é crime – de milhares de Jandiras que têm seus úteros perfurados por agulhas de croché, que sangram até a morte ou que não resistem à infecções pós-operatórias, ou que, como aconteceu com ela, desaparece por duas semanas e seu é encontrado esquartejado e carbonizado.

Nesse país, Jandira nunca possuiu seu corpo plenamente. Seu corpo e de todas as mulheres estão diariamente presos entre as grades de uma ditadura da beleza, dos padrões da magreza, e dos grilhões da dieta. As regras nunca foram suas. Além disso, desde pequena ela vem aprendendo que «aborto paterno» é legal e não é crime, pois essa mesma sociedade que recrimina uma mulher que não quer ser mãe, naturaliza o fato de um homem não querer ser pai, mesmo tendo umx filhx.

Mas essa não é a realidade de toda as mulheres no Brasil ou dos países que ainda proíbem o aborto. A escolha pelos procedimentos inseguros e que podem mutilar muitas mulheres é a tenebrosa opção que parece ser a mais acessível para as negras, trabalhadoras e faveladas. Existe sim no Brasil clínicas de aborto seguro, porém caras, que atendem a fração mais rica da sociedade.

Por que não há as mesmas condições para todas as mulheres? Por que o preconceito e conservadorismo atinge em peso mais as mulheres pobres? Por que o discurso do apelo à vida do feto não abrange as vidas dessas mulheres que vão à clínicas clandestinas sem saber ao certo se voltam sem sequelas?

Aproveitamos um dos poucos casos que vem a público para denunciar as opressões sistêmicas e as questões de classe das quais são vítimas as Jandiras que diariamente se submetem a essa humilhação e o Estado e seus governos que patrocinam o feminicídio e disseminam conscientemente, em troca de apoio político, a misoginia e todas as opressões através de Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, pastor Everaldo e outros tantos fascistas no poder. A OATL entende como colonialismo político o preconceito e a perseguição religiosa que, infelizmente, é comum entre praticantes de certos cultos, mas denuncia o autoritarismo ideológico por trás das práticas que visam padronizar toda a população em torno de um modelo hetero-normativo único e criminalizam as pessoas que não se encaixam nestes requisitos.

O aborto não é um caso de religião ou de biologia. Estamos falando sobre a saúde e a vida de mulheres, do autoritarismo absurdo que é o controle sobre seus corpos e de mais uma morte que vai para conta da classe trabalhadora.

Não esqueceremos!

Aborto livre, público e seguro!

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