NOTA DA OATL SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS, ANARQUISMO E O TERROR DE ESTADO

NOTA DA OATL SOBRE A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS, ANARQUISMO E O TERROR DE ESTADO

Esta nota tem a intenção de responder às recentes acusações que a Organização Anarquista Terra e Liberdade, juntamente com outros movimentos sociais organizados, vem sofrendo por parte da grande imprensa e da mídia oficial, pelas quais participaríamos da direção e do suposto financiamento da violência nos atos. Repudiamos esta tentativa clara de criminalizar e desqualificar os movimentos sociais, que, além disso, demonstra um completo desconhecimento do que se passa nas ruas. É o próprio povo que se protege, que se rebela e, em diversos cantos do país e da cidade, onde nem existem grupos políticos organizados, avança e mantém sua luta.
Desde Junho de 2013 observamos o povo, em todo o Brasil, ir às ruas exigir reais modificações sociais. De Norte a Sul vimos se espalhar a rebeldia, a indignação, o ódio ao Estado opressor, a luta por saúde, moradia e educação, o confronto direto com os capitalistas (como os monopólios dos transportes públicos), o ataque a bancos (símbolos do capitalismo que nos sugam todos os dias) e órgãos da repressão, inclusive da ditadura (como o clube militar e a marcha dos torturadores no dia 7 de Setembro, a PM, etc). Hoje, mais uma vez tentam criminalizar a rebeldia anarquista, com perseguições, fabricação de fatos pela imprensa, tipificação e criminalização dos manifestantes, da revolta.
Desde então, a mídia burguesa tenta silenciar, distorcer, controlar e criminalizar a revolta popular, mistificando e fabricando farsas, mentiras que não condizem com a realidade, distorcendo e criminalizando a luta e o anarquismo. O que mais incomoda é que o crescimento do anarquismo e sua difusão incontida, incontrolável, não é obra, apenas, desta ou daquela organização anarquista, mas, principalmente, do reconhecimento popular da crise terminal do Estado, das instituições capitalistas, e da hipocrisia de seus governantes.
Neste ano, não têm sido diferente. “Olha nós aqui de novo!” A população retomou as ruas, indignada com a repressão policial, contra os assassinatos cometidos pela UPP e pela PM, contra o genocídio da população negra e pobre, contra os aumentos abusivos das passagens de ônibus e contra as remoções de casas, a elevação do custo de vida, os gastos exorbitantes de dinheiro público em megaeventos como a Copa e as Olimpíadas.
Após a morte do cinegrafista Santiago Andrade (e de dezenas de feridos entre crianças, idosos e outros abusos de poder do Estado, ocultados pela mídia), que morreu em uma manifestação após o ataque extremamente violento da PM aos manifestantes que ocupavam a Central do Brasil e em decorrência de um acidente com fogos de artifício que o atingiu, a mídia burguesa tem tentado, com seu sensacionalismo e informações forjadas, criminalizar a revolta popular.
Sabemos que setores de inteligência de Estado, da Polícia Federal, Exército e Guarda Nacional, e da própria imprensa fascista estão sendo cada vez mais utilizados como abuso de poder para perseguir, violar os direitos de privacidade, de organização e manifestação política, de forma orquestrada, tudo com o reconhecimento e ordenação explícita do governo sob anuência do Congresso e de todos os partidos políticos aí representáveis. Perdemos três companheiros na última Jornada! A farsa criminalizatória pesa e espezinha nosso sofrimento, nossa dor… Sequer podemos chorar a violência que sofremos, pois estão à nossa caça. Não é civilização, capitalismo é violência!
A morte do trabalhador Santiago também nos dói, sentimos muito pelo ocorrido, porém, algumas coisas precisam ser apontadas:
1)Nenhuma morte teria acontecido, se a Polícia não tivesse reprimido brutalmente a manifestação. A repressão brutal da PM e o cenário de medo, pânico e dor aí criados foram determinantes de todas as situações de violência e morte. Outros atos na mesma Central do Brasil já haviam acontecido, com 2 catracaços (o povo pulou a roleta), sem qualquer agressão ou ato de violência. Portanto, a responsabilidade pela morte de Santiago, como pelas outras tantas mortes e agressões, é do Estado, ele que é o assassino de Santiago, assim como ele que é o assassino na Chacina da Candelária, Vigário Geral, Borel, Acari, Carandiru, Pinheirinhos, etc. Foi a repressão policial nas manifestações que tirou a visão de tantos cinegrafistas e manifestantes, que foi responsável diretamente pela morte de pelo menos seis pessoas em manifestações desde o ano passado, que atirou com munição letal em outros tantos manifestantes, deixando danos irreversíveis em um rapaz na semana anterior em São Paulo, que prendeu centenas de pessoas injustamente, que gerou ódio e a necessidade de se defender. Nada (ou quase nada) sobre estes casos foi dito na mídia oficial.
2) Como podemos ver nos vídeos, o que aconteceu foi um acidente, diferente do GENOCÍDIO planejado que o Estado por intermédio da polícia faz, todos os dias, em favelas e bairros pobres do Brasil. Acidente este que poderia ter sido evitado se a emissora na qual o jornalista trabalhava tivesse lhe oferecido mínimas condições de segurança para trabalhar em uma zona de conflito. Não podemos deixar de dizer que esta emissora deve ser responsabilizada por isso, algo sobre o que também se faz um profundo silêncio nos meios de comunicação.
3) De modo algum a resistência e tentativa de se proteger por parte da população diante da violência policial, que naquele dia atirava bombas de gás a cada segundo dentro da central lotada de trabalhadores, idosos e crianças pode ser classificada como homicídio, nem sequer culposo, quanto mais doloso. Não existe qualquer indício que permita classificar o fato como homicídio doloso (produzido com a intenção de matar). Ao contrário, todos os elementos de prova do caso demonstram que não houve intencionalidade (domínio do fato), no caso, dos réus atualmente acusados pela polícia civil e pelo Estado. Ocorre apenas que, algum dia, as pessoas cansam de apanhar caladas, de receber tiros de bala de borracha e de munição letal, de ver seus colegas apanharem, e por isso começam, sem direção de qualquer grupo, ainda que cada vez mais organizadamente, a se proteger, se defender, a usar escudos, a levar materiais para primeiros socorros, a usar também rojões para afastar o avanço violento da PM, em suma, a exercer o inalienável direito à rebelião dos povos. Infelizmente, por conta do reformismo, por muitos anos grande parte dos movimentos sociais e sindicatos abandonaram a auto-defesa e a “desobediência”, o que gerou efeitos negativos.
4) Pedir a prisão e defender a condenação dos dois manifestantes como assassinos, como tem sido feito inclusive pela esquerda eleitoral, é um ABSURDO. Fazer isso é legitimar a repressão, o sistema carcerário, condenar o levante popular. Tal atitude mostra bem de que lado da luta de classes se encontra a esquerda oportunista. Diante deste precedente, centenas, talvez milhares de companheiras de lutas poderão ser presas, por acusações falsas, forjadas, por ‘usarem máscaras’ e/ou escudos de auto-defesa, taxadas como ‘terroristas’ em potencial. Qualquer um poderá ser preso preventivamente, por ‘organização criminosa’, pela sanha fascista do Estado nos próximos dias e meses, como forma de garantia e preservação da ordem capitalista! CONTINUAREMOS LUTANDO PELA LIBERDADE de todas as/os presa/os políticos, por sua anistia irrestrita, pelos direitos, em defesa da vida, da liberdade, em defesa da rebeldia de todas as pessoas que ousam lutar contra a opressão e que participam da luta popular. E, ainda, dizemos abertamente que não são assassinos. Assassina é a lógica da razão de segurança de Estado de Cabral e Dilma, de infiltração de agentes (P2), de invasão de privacidade, de perseguição política, de criminalização, coação, ameaça e imposição do medo (terror) contra os manifestantes! Que invade contas de internet, que planta provas surreais, que manipula imagens, ranços dos idos de 64, 68 …
Vale a pena dizer que o transporte público é uma concessão pública, do povo ao qual emana o direito, tendo este o dever e direito de se rebelar contra qualquer arbítrio como o aumento abusivo das passagens, a péssima qualidade dos transportes, as remoções, contra as opressões. A resposta do Estado em defesa de interesses privados, a farsa da CPI dos Transportes, a concessão privilegiada das ferrovias à Supervia-Odebrechet, a concessão privada para a Fifa-Consórcio Maracanã-Odebrechet de mais da metade do Território Indígena Teko Haw Maraká’nà, promovendo a sua mutilação fascista, demonstram de que lado está o Estado!
Por fim, chamamos a mídia burguesa de fascista porque, além de enganar a população com falsas informações, pedir mais leis de repressão, simplesmente não fala da morte das milhares de pessoas que não assassinadas pela PM todos os dias, só interessando à essa mídia tentar criminalizar a revolta popular. Dois dias antes da morte de Santiago, dois rapazes, negros e pobres, foram assassinados brutalmente pela polícia no bairro da Praça Seca. A mídia pouco ligou pro assassinato destes dois jovens trabalhadores, não abordando na maioria de seus jornais o fato, pois, para as grandes corporações controladoras de uma boa parte da informação, a morte de duas pessoas pobres e negras pouco importa, estando mais satisfeita em fazer de um grande espetáculo contra os movimentos sociais e a população pobre e periférica.
É preciso denunciar ainda a tentativa espúria de desqualificar a luta popular mediante a acusação de pagamento de cachê à população pobre para ir à manifestação. Tal acusação ridícula só não é mais cômica porque cumpre o papel ideológico de reduzir toda revolta aos princípios do capitalismo, como se o povo não pudesse se revoltar senão por dinheiro, como se o levante da população fosse mais uma mercadoria, como se tudo fosse comprável. Para estes é preciso ainda dizer: sim, é possível que o povo esteja se rebelando realmente, é possível haver ainda humanidade para além do comércio e das próximas eleições. Nós somos a falha no seu sistema, o que não é lido no seu código, o que você não entende e não pode deter.
A OATL, uma organização anarquista que atua em favelas, ocupações sem-teto, escolas e locais de trabalho, sindicatos, em iniciativas autogestionadas de educação popular, nas lutas pelo direito à moradia e à cidade, promovendo atividades culturais, de ensino e de produção coletiva de conhecimento, organização popular, de luta pela terra, pelo direito às diferenças e à convivência comunitária, foi citada de forma leviana em matérias na imprensa. Não somos nem queremos ser vanguarda da luta popular. Mas somos e seremos sempre intransigentes quanto à defesa e garantia do direito à rebeldia! Do direito à resistência a qualquer ordem abusiva! Não estamos dispostos a ficar sentados no trono de um apartamento como se nada estivesse acontecendo, como se milhares de pessoas não estivessem sendo removidas e outras tantas assassinadas ou perseguidas pela PM.
O que as ruas não cessam de dizer desde junho passado e alguns teimam em não escutar é: o povo não precisa de chefes! Somos uma organização política que sempre atuou e continuará atuando com o povo pelo fim do capitalismo e deste Estado que mata e extermina.
NINGUÉM DIRIGE OU CONTROLA A LUTA POPULAR!

Organização Anarquista Terra e Liberdade, dia 20/02/2014

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