Nota de esclarecimento sobre o despejo de famílias sem-teto na Zona Portuária e Ocupação Quilombo das Guerreiras

SEM-TETOS FAZEM BARRICADAS NO RIO!

Hoje a cidade do Rio parou. A imprensa só abordou o problema do trânsito. O secretário de transportes foi à TV dizer que a situação era “gravíssima”, mas ninguém disse o principal. Quem parou a cidade foram famílias sem-teto que ocupavam os galpões atrás do prédio que era ocupado pela Ocupação Quilombo das Guerreiras. Eles foram às ruas hoje, fizeram barricadas, queimaram pneus, para PROTESTAR CONTRA O DESPEJO QUE ESTÁ SENDO REALIZADO DESDE ONTEM PELA SEDURP, órgão que administra as obras do “Porto Maravilha”.
É preciso dizer, por hora, algumas coisas:

1) Todas estas famílias ocupavam um terreno atrás da ocupação Quilombo das Guerreiras, que em 2006 ocupou o imóvel da Av.Francisco Bicalho n.49. O prédio, que pertencia a companhia DOCAS, estava há mais de 20 anos abandonado, entregue à sujeira, roubos e doenças. Esta ocupação , nestes anos todos, revitalizou o local e criou uma das mais fortes experiências de autogestão e vida coletiva nesta cidade.
2) Com o processo de “revitalização” da área portuária, tocado por empresas e governos, o terreno da ocupação foi entregue ao capital privado e seus moradores conviveram diariamente com ameaças de remoção que hoje se concretizam.
3) Durante todos estes anos a Ocupação viveu sob o massacre do Estado, passando semanas e meses consecutivos sem água e luz.
4) Desde o ano passado a prefeitura removeu mais de 2 mil famílias e as “tacaram” nos galpões atrás da Quilombo. Agora esta mesma prefeitura DESPEJA SEUS DESPEJADOS descumprindo acordos. SÃO ESTES DESPEJADOS PELAS SEGUNDA VEZ QUE FORAM ÀS RUAS HOJE.
5) No final do ano passado, o próprio Estado criou uma situação onde moradores da Quilombo foram ameaçados e alguns tiveram que sair de suas casas. A SEDURP anunciou que iria alugar um prédio para que a comunidade, que recusou os alugueis individuais, preferindo viver em coletivo, se transferisse para lá, mas isso novamente foi uma mentira. Nenhum prédio foi garantido até agora e nenhuma moradia foi dada. Algumas famílias ainda permaneciam no prédio até hoje e estão saindo agora.

ASSIM, ESCLARECE-SE QUE ESTE ATO FOI FEITO PELAS CENTENAS DE FAMÍLIAS QUE PASSAM AGORA POR UM SEGUNDO DESPEJO E NEM ESTÃO RECEBENDO INDENIZAÇÃO.
A QUILOMBO DAS GUERREIRAS FOI DESPEJADA DO PRÉDIO E LUTA AGORA POR UMA MORADIA COLETIVA, QUE ABRIGUE TODA A OCUPAÇÃO, ATÉ RECEBEREM DEFINITIVAMENTE AS CASAS DO PROJETO QUILOMBO DA GAMBOA.

Quilombo das Guerreiras exige uma solução imediata!

O prédio da Avenida Francisco Bicalho, 49, ocupado por dezenas de famílias em 2006 e batizado por estas como “Ocupação sem-teto Quilombo das Guerreiras”, já não é mais do coletivo de moradores. Os moradores que ainda permaneciam no prédio, até hoje, estão saindo deste lugar que por mais de 7 anos abrigou uma das maiores experiências de luta e resistência nesta cidade. A Quilombo das Guerreiras, ocupando o edifício 49 desta avenida até então abandonada e que desde a “revitalização da área portuária” foi vendida para o capital privado, mostrou que é possível viver em coletivo, que a autogestão é uma realidade, que uma comunidade não precisa de chefes, nem donos, e que ela pode se organizar em assembleias, comissões de trabalho e cuidar do seu destino. Em mais de 7 anos um prédio abandonado há de 20 anos foi recuperado. Os próprios moradores fizeram as obras com mutirões e com o dinheiro do seu trabalho. Construíram cozinhas coletivas, bibliotecas, espaços de festa e de aula, banheiros coletivos, junto com apoios tocaram projetos de reforço escolar, Alfabetização de Jovens e Adultos, projetos de cinema e muitas outras atividades.
Hoje a ocupação não está mais neste prédio, MAS ELA CONTINUA COMO COLETIVO DE MORADORES DA QUILOMBO DAS GUERREIRAS. Nas negociações com a prefeitura, ela recusou o aluguel social e avisou que quer continuar como coletivo, como comunidade que se organiza há mais de 7 anos e que já enfrentou 2 despejos antes. Hoje a Quilombo EXIGE UMA MORADIA COLETIVA, garantida pela prefeitura, e PRESSIONA A SEDURP para que isso seja feito imediatamente até que as casas do Projeto QUILOMBO DA GAMBOA, do qual a Quilombo das Guerreiras faz parte, sejam enfim entregues.

A luta continua.
O coletivo da Quilombo não acabou e não vai se render.

Por fim, segue um poema escrito por Angela, moradora da Quilombo das Guerreiras:

Sonhar mesmo depois de ter um membro dilacerado, amputado, de um sonho que sonhava acordada em um espaço real, conquistado, arrombado! Chamado de lar.
Que se diluiu num curto tempo em curtas horas.
Horas que, bem ali, traziam formação, autoformação e formação humana, que reunia sujeitos pra formar coletivo. De uma Quilombo, hoje, de quebra-cabeça, de peças espalhadas, que mesmo no meio do lodo rejeita a corda do inimigo – saída fácil de capital, mas difícil de travesseiro.
No meio do aguaceiro, de chuvas fortes, de cabeça d’água de rio, nos ofereceram um ninho para que pudéssemos repousar.
Agora, o silêncio celebra a dádiva do encontro.
A dor dilacerante da casa perdida respondida com cumplicidade, encontro, olhares, torcida e silêncio.
A casa aberta dentre tantas que “invadimos” por esses dias com pedaços de lembranças, quebra-cabeça de mim, quebra-cabeça de nós.
Cada caixa deixada, recebida com sorriso, guardada com cuidado. Formarão ali à frente a rocha que pretendemos ser.
Obrigada a cada um pelo sim dito no momento aflito.
Amigos de rebeldia, com mais práticas do que teorias.
A A. e P., pelo sim de todo dia.
Pelo abrigo, pelo carinho, pelo amor.
Que jamais esqueceremos.

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