OPERAÇÃO 12 JUNHO DE 2014 – A REAÇÃO (relato de companheira presa dia 12)

alkatras-0010 Era preciso parar a revolta popular. Era preciso garantir a copa do mundo. Mais do que isso, era preciso garantir as eleições, fazer com que as pessoas, antes de junho de 2013, tão pacatas, simplesmente consumindo e votando de dois em dois anos, e que agora estavam nas ruas, exigindo real participação política todos os dias e com amplo apoio popular, servissem de exemplo. Esta efervescência social colocava em risco o lucro dos grandes corporações capitalistas e a manutenção da falsa paz entre as classes que permite o livre exercício do poder de opressão pela classe dominante. A copa do mundo se aproximava e as manifestações voltavam a crescer. É aí que o espetáculo precisava ganhar peso, pois as armas usuais não estavam surtindo o efeito esperado. A primeira grande arma da reação, como se sabe, foi a manipulação midiática, o discurso repetido à exaustação sobre os vândalos infriltados que, supreendemente, não surtiu completamente o efeito esperado. Mas o pânico precisava ser instaurado, era preciso então alguém morrer. Alguém sempre tem que morrer, embora muitos sempre morram de fato. Não estou dizendo que o Estado matou o jornalista, embora certamente a culpa da violência, em máximo grau, seja do Estado e dos seus séculos de opressão, e não daqueles que resistem a ela, mas estou dizendo que foi preciso matá-lo muitas vezes, criar comoção nacional, transformar sua morte em um fato político que amendrotasse a população com o exercício do seu próprio poder, transformar um acidente terrível – pelo qual o própria empresa para a qual ele trabalhava teve sua resposabilidade, já que o enviou para uma área sabidamente de conflito sem material de proteção adequado – em um homicídio planejado com intenção de matar. E muitos foram aqueles e aquelas que morreram no contexto das manifestações, pessoas que levaram tiros de verdade; uma professora intoxicada com o gás; jornalistas que ficaram cegos; trabalhadores atropelados fugindo da polícia, … E muitos mais ainda são aqueles e aquelas que morreram pelos motivos que levaram às manifestações, aqueles e aquelas que morrem todos os dias nas favelas, nas periferias, nas filas de hospitais, vítimas da violência e da tortura policial. Mas subitamente pareceu que isso jamais havia ocorrido, aquela teria sido a única morte desumana da nossa sociedade inteira, pelo menos a única que a mídia já tinha ouviu falar. Pediam-se finalmente as cabeças dos culpados. O circo estava feito. Este foi o pano de fundo necessário à nossa criminalização e consequente prisão.

E então, aconteceu. Sabe-se o tempo todo que pode acontecer, mas não se acredita. Um belo dia, o Estado invade a sua casa e tenta tomar sua vida de você. No meu caso, eram 6 horas da manhã, pois o Estado, quando vem, gosta de chegar cedo, pra pegar todo mundo desprevinido e levar vantagem com isso. Minha porta foi derrubada pela polícia civil, pela CORE. Eu estava dormindo, meu companheiro foi algemado. Minha prisão foi declarada. Estranho ritual este que permite a um ser humano dar voz de prisão a outro. “Você está presa” e, disso, muito deve se seguir, você passa a estar sob a tutela do Estado, não pode sequer mais ir ao banheiro sozinha, não tem mais direito nem a falar com sua filha, é como se fosse um encantamento. É claro que o que garante que o ato de fala seja bem sucedido neste sentido não é nenhum superpoder dos agentes do Estado, são as armas que eles apontam pra você, enquanto cinicamente demandam que você, completamente desarmada, “fique calma”. Engraçada a justificativa “você é uma pessoa perigosa”, por isso a violência. Os agentes do Estado acreditam bastante no Estado que servem. Eles queriam meu celular. No banheiro, tentei acessá-lo, avisar a alguém que estava sendo presa, mas a policial entrou no banheiro e arrancou o celular de mim: “está vendo como você é perigosa?”. Meus gatos fugiram, eles podiam fugir, e quanta inveja senti deles nesta hora. Mas eu ainda não sabia que eles iriam tentar me tirar tudo. Eu vi sim o mandado de prisão temporária, mas não entendia o que isso poderia significar, dado que eles não tinham nada contra mim. Sei apenas que mandado de busca e apreensão não tinham e que, ainda assim, minha casa foi totalmente revirada. Na cidade da polícia, não nos deixaram falar com nossos advogados, só depois de acabar a operação, embora também não soubéssemos disso ainda. Acho que foram duas horas na solitária até sermos chamados para o depoimento que não daríamos e, só então, a possibilidade de dar um telefona. Uma coisa que se aprende rápido na cela: perde-se rapidamente a noção de tempo. A noite na solitária da DRCI foi a mais difícil, sem lugar pra sentar direito, muito menos, deitar, só o boi no chão que, quando se dá descarga, alaga a cela toda. Descarga, aliás, que é dada pelo carcereiro: e daí você sabe o principal papel do Estado na vida de alguém: gerenciar até sua merda. E a cada momento víamos chegar mais companheiros, sem saber quantos haviam caído. É muito melhor perder espaço na solitária do que ficar só com apenas uma janelinha, ficar só é desespero. Ficamos três na mesma cela, cercadas pelos companheiros que lotaram as demais solitárias. De repente, alguém começou a cantar a Internacional e nos tornamos uma só voz, foi como se sentir viva novamente. Nenhuma ameaça, luz cortada, impedimento de visita dos advogados nos fazia parar. Quando gritaram: ‘poder para o povo’, ficou claro o quanto fazia sentido estar ali, que nossa luta é a mesma de tantos que se rebelaram em tantas outras épocas, em tantas ditaduras e apartheids, declarados ou não. No dia seguinte, fomos levados algemadas para Bangu, onde fomos isoladas das outras presas. Lá, eu permaneci, 13 dias. Passei frio, fome, fui atacada por mosquistos, sofri tortura psicológica, presenciei torturas muito piores. Nada do que passei pode ser comparado ao que passam as demais presas de Gericinó, lá, esquecidas, isoladas, as verdadeiras presas políticas desta sociedade desigual. Estar presa é ser lembrada todo o tempo que você não tem direitos, que você não é nada, ‘você está presa’ significa ‘a partir de agora você não é mais humana’, você é escória, contra você tudo é permitido, tudo é justificado. ‘Mãos pra trás e cabeça baixa, não encare seu opressor de frente, encorpore a submissão’. O sistema prisional leva ao extremo aquilo o sistema pedagógico já legitima, uma pedagogia do castigo e da culpa, da punição e da dor, da exclusão, da segregação e da humilhação. Por isso é, antes de tudo, toda uma sociedade que é cúmplice da existência de lugares como aquele.

O Estado tentou tirar tudo de nós. Mas é quando se tenta tirar tudo de alguém que se fica diante do que não nos pode ser tirado ou destruído. Isso é o que sobrevive à própria morte. Nossa luta não vai parar. Temos um dever para conosco mesmos, com o que acreditamos e com todxs aquelxs que sofreram e ainda sofrem forte violẽncia e perseguição por parte do Estado, para que nossa luta não tenha sido em vão. Se pararmos agora, estaremos dizendo que não vale a pena se organizar para modificar a sociedade, se pararmos agora, o Estado terá vencido. Temos que levantar nossas cabeças e lembrar que o caminho é longo, que hoje ainda somos poucos, mas que estamos crescendo, que a modificação da sociedade não se faz do dia para noite, que é todo um processo e que a reação também faz parte do processo. Temos que lembrar que se nos agridem é porque nos reconhecem como inimigos reais. É hora de sermos a solidariedade que não vemos nessa sociedade e cuja força é tão temida que precisa ser chamada quadrilha armada. Sim, esta é nossa maior arma agora, os valores que mantemos e que eles não conseguem quebrar por dentro. A nossa luta é já revolucionária, novos corações e mentes, práticas e vivências. Um espectro ronda a velha sociedade, nós somos este espectro. Vamos abrir novamente nossas faixas, levantar bem alto nossa bandeira negra. Nada temos mais o que lamentar, o Estado mostrou que nos teme, jamais esperamos nada dele, vamos responder que ele tem mesmo motivo para temer. Não a nós somente, mas todxs aquelxs oprimidxs que se levantam, todxs que já não aguentam mais e que não vão se calar. O critério da verdade é a prática, sigamos com ela.

Camila Jourdan (Professora da UERJ, militante da OATL e do GEP Uerj-Mangueira)

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