Preso no dia 12: a perseguição às organizações políticas

– “Por que vocês estão levando minha camisa? Ela é só uma camisa de um
encontro de movimentos sociais.
– “Talvez você esteja sendo investigado por algo relacionado a esse tipo de
organização política”
(Dialogo travado durante a abordagem da policia civil após apreender uma camisa minha do Encontro latino Americano de organizações populares e autônomas).

1040615_4221210306757_1003905250_o Acordar às 6 e 30 da manhã com a policia com um mandato de prisão não é uma experiência nada agradável, ainda mais contando com a presença de sua mãe e da sua namorada. Ser sequestrado pelo Estado as vésperas da final da Copa do Mundo faz de alguma maneira o sujeito, de cara, se sentir alvo de uma grande injustiça. Eram três policias civis, dois deles portando fuzis e um deles se apresentou como delegado. “Onde estão os coquetéis molotov, os escudos, as bombas e as roupas pretas de black bloc?”, dizia o delegado. De material “subversivo”, fora os muitos livros que a policia no meu caso não caiu no ridículo de tentar levar, havia sim um “perigosíssimo” armário com muitas roupas pretas, uma máscara de gás e um óculos de proteção. Fora o meu gosto desde pequeno por roupas pretas (que ainda não é crime) e o material de proteção comprado legalmente no centro do rio (que foi apreendido), achei que não teria muitos problemas com um “possível flagrante”, pois não tinha nenhum dos artefatos que a policia civil dizia procurar. Mas ao “gentilmente revirar a casa”, um policial acha mais um claríssimo e “óbvio flagrante’, uma camisa típica de um “terrorista perigoso” que, além de preta, continha o nome de um encontro de movimentos sociais que participei. Um indígena de punho erguido e a frase “incendiária”: “lutar, criar, poder pular”. A justificativa para a apreensão era clara: eu estava sendo investigado por algo relacionado a organizações politicas, nas palavras de um dos policias que me abordou. “Acordamos em 68, lei de segurança nacional”, eu disse. Um dos sujeito de fuzil na mão, irritadíssimo, disse que eu era “muito garoto para saber o que acontecia em 68”. Disse para ele que eu era professor de História, mas logo percebi que não era muito inteligente debater política com um sujeito com o fuzil na mão destinado a me prender. Nada do que eles procuravam acharam, mas, na verdade, não havia jeito, pois eu já tinham mandado de prisão por “crime de internet”. Depois de muito tempo sem saber qual o crime havia realmente cometido, muito tempo depois descobri que estava sendo acusado de formação de quadrilha. No inquérito dizia que eu seria “diretor” e “fundador” de uma organização anarquista “perigosa”, a OATL. Choros da mãe, um beijo doloroso e um “volto já” esperançoso, um carinho no gato e eu e minha companheira fomos para Polinter, na cidade da polícia.
Na Polinter soube dos outros mandados, vi muita gente chegando. Vi gente pela primeira vez na vida, pessoas que nem sabia o nome, mas que supostamente fariam parte da nossa “quadrilha”. Vi também antigos conhecidos, guerreiros e guerreias: professores, estudantes, advogados, jornalistas que conhecia de diversas lutas, greves, manifestações. Ficamos um dia na Polinter, em uma espécie de solitária toda branca (alguns sozinhos nessas celas e outros em dois), olhando horas para um agoniante branco florescente que fica até hoje na minha cabeça. A cela era de um tamanho mínimo. Dormimos no chão com uns papelões para nos cobrir. Para as necessidades básicas o “boi” (um buraco no chão) e mais nada, sem papel higiênico, nem nada do tipo.
No dia seguinte fui levado para Bangu 10, onde fiquei por 5 dias, com os outros presos políticos homens e posso dizer que foram momentos de apreensão, medo do futuro, incerteza. Não sabíamos quanto tempo ficaríamos, se haveria renovação da prisão temporária ou se haveria a decretação da prisão preventiva. Esse “não saber do que vem pela frente” e o “isolamento do mundo” são coisas que doem pra caramba, que vão tentando quebrar o sujeito por dentro. Tem certas coisas que não dá para descrever, o sentimento de que você pode ficar uma boa parte da sua vida dentro de um quadrado frio, com grades no final, é algo indescritível. No mais, é importante frisar que não fomos agredidos fisicamente, mas posso afirmar categoricamente que somos a exceção do sistema penal brasileiro, essa máquina de matar gente, de destruir a juventude negra e pobre, essa máquina de controle e destruição de vidas.
Os pobres e negros, como o morador de rua Rafael Braga, são para eles os “espancáveis”, os “morríveis”, são vidas que na maioria das vezes não viram nem estatística.
Já fora da cadeia, vi minha foto estampada no Jornal Nacional, lá diziam que eu era acusado de organizar o “ato violento do dia 28” e que eu, através do Sepe (meu sindicato), financiaria atos violentos. Detalhe: o ato“violento” do dia 28 foi justamente o que foi brutalmente encerrado pela polícia, em um quase “toque de recolher”. Da polícia – prisões, espancamentos, spray de pimenta. Dos manifestante? Nenhuma pedra sequer. O verdadeiro ato violento, organizado não por mim, mas pela polícia militar do Rio de Janeiro.
Tive acesso ao processo e lá presente fotos minhas fazendo de tudo: andando, tocando violão, mas nenhuma foto sequer fazendo algo considerado pelo Estado como ilegal, nenhuma pedrada, nenhum molotov, nenhum estalinho sequer. Meu crime no processo seria o de ser diretor de uma organização política anarquista e essa ser responsável por “atos violentos”. Gostaria de dizer que sou anarquista desde os meus 13 anos de idade e nunca escondi isso de ninguém, isso é público e até pelo que sei na constituição brasileira não existe (ainda) o “delito de anarquismo”. Fiz parte de outros grupos anarquistas e hoje faço parte da OATL e me orgulho disso, não tenho vergonha alguma de estar numa organização política que ajuda na luta dos sem-teto, que atua em greves de trabalhadores, que atua em favelas e periferias com educação popular, junto com outros companheiros e companheiras. Vergonha eu teria de ficar escondido em um gabinete, lucrando com a miséria do povo, mandando remover favelas, agredindo trabalhadores em greve, massacrando indígenas, quilombolas, negando direitos a LGBTTs. Sabemos que a verdadeira quadrilha é a aliança do PT/PMDB aqui no Rio de Janeiro, é a quadrilha PSDB em São Paulo. Esses nunca vão para cadeia, pois praticam o verdadeiro terrorismo, o legalizado, aquele praticado pelo Estado.
No mais, creio que esse ataque, essas prisões politicas, não são um ataque a mim, ou as organizações que aparecem no processo. São um ataque à luta popular, um ataque a todos os movimentos sociais, no sentido de que o Estado está nos usando como laboratório no aprimoramento de seu aparato repressivo e está querendo gerar medo, intimidação. Assim, vejo que a apreensão de panfletos, camisas, bandeiras, pode nos indicar o real sentido desse processo: a perseguição política.
De todo modo, em uma coisa tenho que concordar com os policiais da civil que me prenderam: estamos sendo investigados, presos e processados por algo relacionado a organizações politicas.

“Lutar criar!Poder popular”

Filipe Proença (Professor da rede estadual, militante da OATL e do GEP)

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