Prisão, lugar comum (relato de uma companheira presa no dia 12).

1507962_461903543915512_1184345678_n A data é 12 de julho de 2014. Véspera da final da Copa do Mundo de Futebol. O local, Rio de Janeiro, Brasil. Nas ruas, só há autorização para aquilo que aparenta ser alegria. Aos removidos de suas moradias e revoltados com os investimentos deste evento frente à precarização da educação, da saúde, e dos trabalhadores em geral, as grades. Às 6h da manhã, bate na porta da minha casa um grupo de policiais com mandato de prisão preventiva por cinco dias em meu nome. Meus pais atenderam e assustados permaneceram e ainda permanecem. Sua filha é declarada criminosa para o Estado. No papel, crime de internet. A ironia reside justamente no fato de eu não entender absolutamente nada sobre estas novas tecnologias informacionais. Na vida, crime de expressão, de educação para a revolta, de lutar para ser livre, o que, historicamente, é comprovado que o Estado, democrático ou ditatorial, caça diante da ameaça a sua hegemonia. Dormia, eu, em casa de amigos e as 6h20min meu pai me ligou e avisou o ocorrido. A princípio, sem a completa noção sobre a dimensão desta operação montada para nos tirar das ruas e nos calar, penso em tomar o rumo normal do dia. Ir à assembleia do sindicato dos profissionais da educação, e lá, buscar a orientação de um advogado. Fica claro, para mim, que se trata de mais uma perseguição aos professores grevistas que de forma corajosa lutaram contra o descaso dos governos, contra a sua truculência e dura repressão intensificada pelos processos administrativos e demissões da categoria pela adesão ao movimento. Ligo para outros companheiros para avisar sobre o ocorrido, combino de encontrar com um deles, e sigo. No meio do caminho, bem na entrada do metrô (seria linha 743?), me gritaram o nome, me agarraram e me prenderam. Tortura psicológica. Estavam com escutas nos celulares de todos os militantes políticos e alegavam sermos uma “quadrilha criminosa”. Destaco o fato de que nem mesmo nos conhecíamos a todos. “Quem é o compa fulano de tal? E a compa beltrana? Vai falando logo!!!!”. Me reservei o direito ao silêncio e resolvi contar com a sorte.

Chego à DRCI (Delegacia de Repressão a Crimes de Informática), o novo centro de perseguição e repressão a manifestantes do Rio de Janeiro. Na placa acima leio a inscrição “Cidade da Polícia”. Da polícia? Eis o latifúndio do Estado a serviço do exercício da violência. Raiva, indignação. Entrei, sentei, primeira pergunta: você é anarquista? Respondo que só falarei em juízo. Me encaminharam para uma ala de corredores desertos e lá revistaram minha mochila, apreenderam minha agenda, coletaram minhas digitais e me tiraram foto. De frente, para um lado e para o outro. No discurso de alguns policiais: somos marionetes do Estado e estamos com vergonha do que estamos fazendo. Penso eu, que ter vergonha ainda é resquício da humanidade que sobrou dentro da figura que escolhe ser inanimada, mas ainda assim, seguia a me encarcerar. Afinal, não está ao meu lado, concluo, confesso, que com pesar. Lembro de ter me sentido mal por pensar nas pessoas que reproduzem esse tipo de papel e passam por cima de si, do que acreditam ou querem acreditar. Se deixaram ser adestrados por uma corporação, mataram o que havia dentro de si deliberadamente, e de fato é uma tristeza enorme pensar naqueles que abrem mão de sua liberdade de forma consentida ao lado do opressor, apesar de originalmente terem sido duramente oprimidos. Tenho ex-alunos brilhantes, favelados, que vivenciam atualmente esse processo, e me sinto profundamente dilacerada pelo fato da educação que tentei promover não ter sido efetivamente libertadora para eles. Mas seria culpa minha, professora com 22 turmas, mais de 600 alunos, e 45 minutos de aula em cada sala, ou das condições de trabalho que o Estado me oferece? Ainda assim, tristeza permanece.

10522415_307858659396786_5212770705471439315_n Logo em seguida, presencio o que não é cena, mas sobretudo barulho: o primeiro bater de grades e cadeados, em meio a um quadrado completamente branco, dois passos pra lá, dois passos para cá, com um buraco no chão e um cano bem no alto. Ao gritar por água diante da sede, carcereiros o acionavam, e imediatamente a cela era inundada. Frio e humilhação. 19 presos políticos, agora, tentavam se dar apoio, gritando por entre as grades palavras de força, canções de luta. Assobios de las barricadas, amanhã vai ser outro dia. As luzes se apagam, as vozes permanecem, emociono-me.

No dia seguinte, fomos encaminhados para o Complexo de Gericinó, presídio de máxima segurança, e lá permanecemos por mais quatro dias. Lembro claramente do meu espanto ao entrar naquele lugar, algemas nas mãos, prisioneira que sempre me impuseram ser: era o colégio em que eu havia estudado minha vida inteira. O colégio em que eu lecionava, com as mesmas figuras, tanto repressoras quanto reprimidas. As mesmas paredes, mesmas cores, os mesmos barulhos de grades, o mesmo uniforme, agora escrito “Ressocialização”, as mesmíssimas roupas, falas e postura da direção. De fato, o choque que imaginei que teria ao entrar naquele local se transmutou nas percepções de visualizar e sentir, dentro de mim, a sociedade disciplinar de Foucault. A arquitetura, o panóptico, as pessoas, a vigilância e o controle. Tudo aquilo me era mais familiar do que as praias desertas que posso descobrir após uma trilha qualquer. Do que o próprio pôr do sol. E com o passar dos dias, com o frio, com os gritos que rondam os corredores, com as revistas, com as histórias que te contam. Com todo o tratamento que lhe é dado naquele espaço, com a obrigação de formar e chamar pelas “senhoras funcionárias” de cabeça abaixada, e com a perda da noção de tempo, apesar de tamanha convicção que sempre tive em cada tomada de ação, em cada reflexão, comecei a me questionar se teria deixado escapar algum grande equívoco ao longo da minha trajetória que seria responsável por me colocar na clausura daqueles dias. E mais uma vez percebo que aquele espaço, como absolutamente todos os espaços em que fomos criados, são justamente formulados para que você, diante da ameaça em ser culpabilizado ainda que arbitrariamente, se coloque na posição mais disciplinar possível, afim de que comprove que é inocente, ou melhor, um cidadão de bem e convicto na ordem vigente. Se você está ali, é para sentir-se mal, sem cantos, só desencantos, sob a pena da tortura mais real e cruel. Lembrei-me das famosas baderneiras que ao longo da história passaram por isso. Ouvia baderneiras e seus relatos de espancamento durante a madrugada pelas conversas que travavam ao invés de ir dormir. Lembrei-me das mulheres pobres, negras e guerreiras que, se não passaram por isso, compunham as enormes filas do lado de fora do presídio para visitarem seus companheiros, apesar de todo o ritual humilhante ao qual precisam se submeter para tal. Percebi que era mais uma, dentre tantas que passam pelo sistema carcerário e que se revoltam com essa proposta de “solução de problemas sociais” do Estado, da burguesia.

Na janela gradeada, torcia para o sol aparecer no dia em que eu saí. E ainda que ele me apresentasse em formato recortado, eu o admirava mais do que nunca. Seu calor era terapia que diminuía a angústia pelo concreto frio e cinza. Queria poder ver o horizonte, e o céu e o mar. Poder sentir o vento no rosto. Pensei que talvez estivesse sensível demais diante daquela porrada que levamos. Mas hoje percebo que a luta que travo não faz o menor sentido sem o desfrute daquilo que é belo e que foi privatizado, tornou-se privilégio de classe. A luta que travo, na verdade, se pauta sobretudo na possibilidade de sermos livres, de amarmos um amor não mercantil, de sorrirmos e sermos felizes porque a nossa justiça é a justiça popular. A luta que eu travo não cessa e jamais cessará frente às investidas dos opressores, frente às investidas do Estado. Não se trata de mim, e nem dele ou dela, é preciso que se atente a isso. Trata-se da indignação popular e do seu anseio em transbordar o seu grito, sua angústia e falar, em ter punhos e produzir para si, em se escutar, se respeitar e caminhar juntxs à incomodar até que consigamos exterminar o poder dos patrões desse mundo.

Finalmente saio e, mais uma vez, me decretam a prisão preventiva. De fato, incomodei, penso. Periculosidade na democracia liberal representativa é medida pelo seu grau de envolvimento e comprometimento com a classe trabalhadora, e pelo seu grau de mobilização e organização da insatisfação popular. Caminho no rumo certo, orgulho-me e de meus e minhas companheirxs. No dia seguinte, sou declarada foragida, porque o Estado, em meio a todo esse processo inventivo, caótico, mal elaborado e investigado, apresentando-me uma denúncia vazia, acha que eu deva abrir mão de minha liberdade e defesa. Assisto às manchetes nos jornais, ouço as falas da TV, e percebo o espetáculo que montaram como estratégia de perseguição e criminalização dos movimentos sociais. Falas deturpadas de hoje, de ontem e de amanhã, enquanto as grandes corporações de mídia detiverem o poder tão intensivo de manutenção do próprio poder e dos privilégios de classe, pela manipulação e alienação.

Os dias passaram, as manchetes mudaram, e respondemos, ao final de todo esse processo, em liberdade provisória, porém com restrições. Os 23 perseguidos políticos (declaradamente) do Rio de Janeiro não poderão sair da comarca ou do país, não poderão participar de manifestações ou reuniões públicas e deverão se apresentar ao juiz mensalmente. E apesar de todos os absurdos, resta-nos, agora, além de toda a luta que travamos, a luta pela superação destas medidas e pelo fim desse inquérito kafkaniano, que não encontra mais respaldo nem mesmo por parte das instituições que o fomentaram. Ainda restam na prisão Rafael Braga Vieira, Fabio Raposo e Caio Silva. Ressalto que não serão esquecidos!

Ao final desta pequena parte de todo esse processo de dura repressão e perseguição aos movimentos sociais que se segue e seguirá durante bons tempos, percebemos claramente a intenção de se caçar militantes, dentre tantos e tantos outros, como exemplo para a instauração do artifício do medo em ir para as ruas, em lutar por direitos e por uma nova sociedade, por que não? Pois eles têm as armas deles, pesadas e caras, que visam nos paralisar, nos assassinar, fazer desistir, mas nós temos a coragem, a solidariedade e a revolta de nossos muitos. Para os que não sabem, o tempo inteiro é citado no inquérito o fato de chamarmo-nos de companheirxs. Em cada ligação, cada ação, destacam esse chamamento, com uma intenção clara de nos vincular, de traçar as redes de pessoas que ainda não esmoreceram, que resistem. Pois sendo assim, sinto informar aos fascistas de plantão, que o que julgam ser quadrilha, é, na realidade, uma classe do tamanho de todo o mundo. Nós, exploradxs, oprimidxs, sacrificadxs diariamente, torturadxs, presxs, mortxs, assassinadxs pela ditadura militar e pelo regime democrático de falta de direitos, fomos todxs companheirxs de angústias, mas ainda seremos todxs companheirxs de liberdade. Eles, unidos pelos frágeis vínculos do capital, não passarão! E nós permaneceremos de pé, ao longo dos séculos, dos séculos, porque somos bravos. Somos justos. Prevaleceremos!

Rebeca de Souza (Professora da rede estadual, militante da OATL e do GEP)

Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.