Resposta da Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL) ao PSTU e a Arnaldo Jabor, juntos na deturpação do anarquismo e da luta popular autônoma

Resposta da Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL) ao PSTU e a Arnaldo Jabor, juntos na deturpação do anarquismo e da luta popular autônoma

 

 

Liberdade sem socialismo é privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade é brutalidade e escravidão.

Bakunin

 

No dia 16 de Junho, difundiu-se nas redes sociais duas mensagens semelhantes: Arnaldo Jabor, o velho reacionário que declarou que os “jovens” que lutam pela redução das passagens “não valem 20 centavos”, disse na CBN que O Movimento Passe Livre tinha toda a cara de anarquismo inútil”, por isso ele temeu “que toda a energia fosse gasta em bobagens, quando há graves problemas no Brasil”. Ao mesmo tempo, o PSTU, com seus famosos slogans – Liberalismo burguês: a verdadeira filosofia do anarquismo”, declarou em seu site: “O anarquismo é hoje uma força influente nos movimentos contra o aumento das passagens em todo o país. Sua ideia central é a defesa de um movimento ‘horizontal’, formado apenas por ‘indivíduos’, sem partidos ou sindicatos, sem qualquer organização, estrutura e estabilidade. Essa ideia parece muito boa, mas é muito ruim. O movimento contra o aumento precisa da classe trabalhadora para vencer, precisa atrair os movimentos sociais organizados, e é justamente aí que a ‘horizontalidade’ e a ‘individualização’ do movimento exibem seus limites”.

Vindas de Arnaldo Jabor, conhecido por suas declarações conservadoras e de direita, e do PSTU, um partido marcado pelo autoritarismo, a burocratização das entidades e sua representação preconceituosa da classe trabalhadora fora das indústrias como “lumpem-proletariado” – o velho conceito etnocêntrico de Marx, forjado no seu mundo europeu, branco e alemão -, não nos assustam. O anarquismo, como diz o próprio PSTU, com sua defesa da “horizontalidade”, sempre foi um inimigo da direita e da esquerda autoritária que visa, como falava Bakunin há mais de um século atrás, criar novas ditaduras sobre o povo e fundar novos Estados, comandados pela elite intelectual do partido, que irão explorar a classe trabalhadora e todas e todos aqueles que fogem do seu perfil hegemônico: homem, branco, europeu e heterossexual. Ao contrário do que dizem Jabor e PSTU, o anarquismo não é uma rebeldia inútil e nem um modo de realização do “individualismo burguês”. É ridículo ler de um partido que se diz democrático e revolucionário colocações tão grosseiras e estúpidas como estas: A ‘liberdade individual’, tal como defendida pelo liberalismo e pelo anarquismo, pode ser uma boa ideia para as classes médias da sociedade. São elas que lutam pela própria sobrevivência de modo sempre individual, com seus pequenos empreendimentos comerciais e empregos competitivos. Mas para a classe operária, as coisas são diferentes. A força dos trabalhadores está em sua organização, mais do que em seu número ou em suas individualidades”.

Com uma estupidez extrema, o PSTU simplesmente ignora que foram milhares de anarquistas que fundaram o movimento operário no Brasil, que criaram os primeiros sindicatos, tocaram as primeiras greves, barricadas, associações rurais, escolas e universidades proletárias, creches populares, organizações por bairro, tentativas de insurreição, sendo por isso – por seu “coletivismo” – perseguidos, jogados em campos de concentração – como a Clevelândia, durante o governo Arthur Bernardes – e mortos por sucessivos ditadores. Com sua leitura dogmática da história e da realidade, este partido ignora que a primeira organização política revolucionária no Brasil, próxima ao que chamamos de “partido” (mas distante do que o PSTU e o marxismo-leninismo entendem como partido – uma organização hierarquizada e burocrática que leva a “consciência” para o trabalhador alienado), foi construída pelos anarquistas em 1919 (o Partido Comunista Anarquista), e que desde Bakunin, Makhno, Malatesta, Magón, Durruti, entre tantos outros revolucionários anarquistas, a defesa de uma organização específica anarquista, organizada para intervir como “minoria ativa” nos movimentos sociais e na luta de classes com propostas, estratégias, organização coletiva e programa, é colocada e defendida como uma necessidade para a revolução. O PSTU ignora, também, que milhares de anarquistas constroem hoje a luta no movimento de favelas, de ocupações sem-teto, de ocupações rurais, com trabalhadores desempregados, do setor de serviços, autônomos, trabalhadores rurais, setores da classe trabalhadora mais explorada que não fazem parte do que eles chamam de “classe média”. Setores que são desprezados pelo partido que se diz da “classe operária” e que centra suas atenções no movimento estudantil universitário e nos profissionais do serviço público.

Usando uma retórica frágil, tentam associar também o anarquismo ao “apartidarismo” dos militares e reduzem tudo aquilo que ficou conhecido como “movimento anarquista” a esta posição. Como organização política específica, com unidade teórica e prática, com militância organizada e ação coletiva, acreditamos que não é preciso nem se estender nesta crítica – pois, senão, o socialismo do PSB e do PCdoB seria igual ao do PSTU, pois todos reivindicam o “socialismo” – e preferimos destacar que este forte sentimento contra as bandeiras do PSTU deriva da sua prática oportunista e autoritária, pois suas bandeiras estão sempre colocadas na frente das bandeiras que trazem as revindicações do ato, tentando criar a imagem de que esta manifestação é obra deste único partido. Não somos necessariamente contra a utilização de bandeiras, mas acreditamos que elas devem ser utilizadas sem visar tomar e atropelar as mobilizações, como fazem o PSTU.

Por fim, partindo da frase de Jabor sobre a inutilidade do anarquismo, queremos ressaltar que após o fim das experiências autoritárias do que foi pessimamente chamado como “socialismo real” (pois, para nós, socialismo é liberdade e igualdade) – construídas também por Trotski, que antes de ser perseguido por Stalin mandou fuzilar os trabalhadores de Cronstadt e os camponeses da Ucrânia que lutavam pela coletivização da terra e a manutenção dos soviets (conselhos de trabalhadores) – e da experiência petista, os ideias sempre defendidos pelo anarquismo – a democracia direta, a autogestão, a ação direta, as mobilizações autônomas, a criação do poder popular, a defesa do coletivismo contra o individualismo – tornam-se cada vez mais necessários para que a gente possa criar um “mundo onde caibam muitos mundos”, para que o povo possa se auto-governar, destruir o capitalismo e criar uma sociedade baseada na liberdade e na igualdade.

Organização Anarquista Terra e Liberdade

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3 respostas a Resposta da Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL) ao PSTU e a Arnaldo Jabor, juntos na deturpação do anarquismo e da luta popular autônoma

  1. Henrique Oliveira disse:

    Meus amigos, eu só não entendi bem, por isso, gostaria que deixassem mais claro, na parte do final, ou seja, contando 6 linhas antes do fim, onde diz: ” – e da experiência petista, os ideias sempre defendidos pelo anarquismo – a democracia direta,”. Quanto ao mais, é um bom texto. Abraço a todos(as).

  2. Concordo com a horizontalidade dos movimentos que as jornadas de junho exemplificaram como viés verdadeiramente possível. Concordo com as críticas ao centralismo do PSTU, quando ao Jabor deveria estar em sua casa de praia lambendo Chicabom pois a sua língua não deve servir para muito mais do que isto. A única coisa para a qual eu chamo a atenção é justamente quanto aos limites do pensamento de Marx que de certo existe, contudo antes de criticar é incontornavelmente necessário que se leia. Marx nunca defendeu o estado apontando os limites do estado burguês e condenando o reformismo. Marx chegou a afirmar que seria melhor viver nos limites de uma democracia burguesa do que num estado socialista centralizado. Algo que Marx aprendeu com a Comuna de Paris, por exemplo, foi da importância da organização dos coletivos tão em voga nestes últimos tempos, Chegou a dizer: “A fórmula política finalmente encontrada” para o processo revolucionário efetivo em que o trabalhador de posse da instrumentalidade política, legislativa e deliberativa, não se trairia, empreendendo assim a muito mal entendida ditadura do proletariado, que não objetiva o poder, mas a emancipação humana. Apesar da importância da unificação de todas as frentes de luta é preciso considerar que autores ditos marxistas muitas vezes prestaram desserviços ao processo revolucionário, a iniciar pela dissolução dos sovietes . Bora estudar, entender a realidade e agir.

  3. Cainha disse:

    Oi companheiro, desculpe pela demora da resposta. O problema está na leitura das pontuações. “experiência petista” está relacionada ao início da frase antes do traço: “queremos ressaltar que após o fim das experiências autoritárias (…) e também da experiência petista, os ideais sempre defendidos pelo anarquismo” ai segue entre travessões os ideais relativos ao anarquismo (a democracia direta, a autogestão, a ação direta, as mobilizações autônomas, a criação do poder popular, a defesa do coletivismo contra o individualismo) “(…) tornam-se cada vez mais necessários… (esses ideiais)”.

    Não temos nada a ver com a esquerda falida do pt ou o que chamam de democracia popular! Nem nenhuma esquerda que pretenda tomar a voz do povo…
    Abraço!

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