Seminário “A Comuna de Paris”

Participaremos amanhã com a Frente Independente Popular do seminário sobre a comuna de paris, as 18h na UERJ. No nosso 4ª jornal divulgamos o texto “Pedreiros, donas-de-casa, operárias e carpinteiros no poder: A Comuna de Paris”, que reproduzimos abaixo:

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Pedreiros, donas-de-casa, operárias e carpinteiros no poder: a Comuna de Paris.

“Agora até os pedreiros querem mandar!” – Oficial do exército de Versalhes antes de executar um pedreiro que comandava um batalhão da Guarda Nacional revolucionária.

      Imagine uma sociedade onde os setores mais explorados dos trabalhadores, aqueles tidos pelos ricos como desprezíveis, estivessem no poder. Onde aqueles e aquelas que na sociedade atual são alvos de constantes ordens, mandos e desmandos estivessem sendo protagonistas de uma revolução. Onde os que são hoje, apenas executores de tarefas, fossem também pensadores, intelectuais. Um tempo em que poetas estivessem armados nas barricadas junto com os operários. Um tempo em que os operários fossem poetas. Na nossa organização social atual, na qual um deputado ganha 30 vezes mais do que um professor, pode parecer estranho o exemplo da comuna, que nivelou os salários de seus “representantes” para o mesmo que o de um trabalhador manual!Vamos discutir um pouco a Comuna de Paris e mais do que nunca, pensar os nossos dilemas atuais à luz da Comuna, o primeiro governo dos trabalhadores da História!

        A guerra franco-prussiana havia levado os trabalhadores franceses à miséria, o tratado de rendição assinado pelo governo francês, o chamado Governo de Defesa Nacional, localizado em Versalhes, era visto pelos trabalhadores e até mesmo por diversos setores da pequena-burguesia (lojistas, comerciantes e pequenos proprietários) como uma traição. O acordo incluía o cerco das tropas prussianas à Paris, o que levou os parisienses a um estado de extrema pobreza. Os mais ricos chegavam a ter que se alimentar com carnes de animais de circo, o que era um privilégio, pois os trabalhadores se viravam com ratos, insetos e cobras. Nesse contexto, os parisienses se revoltam com a nova República, uma República de fachada, dominada por monarquistas e conservadores e em março de 1871, por meio de uma insurreição popular, constituem um governo independente, a Comuna, visando que seu exemplo se espalhasse por toda França.

      A Comuna de Paris durou apenas 72 dias, mas introduziu mais reformas que os governos dos dois séculos anteriores combinados. Seu mérito está em que, mesmo nesse curto período e enfrentando os prussianos e as próprias tropas francesas de Versalhes, a Comuna organizou e legislou com um modelo de poder realmente popular, de democracia popular, diferente de qualquer experiência de democracia burguesa como a nossa. Os “delegados” da Comuna, no início em torno de 90, eram eleitos pelos distritos (espécies de bairros), os chamados “arrondissement”, que eram a verdadeira base do poder da Comuna. Os distritos se reuniam em assembléias coletivas, discutiam e deliberavam. Os mandatos dos “delegados” eram revogáveis, ou seja, poderiam ser anulados a qualquer momento por vontade do povo. A grande diferença para a democracia burguesa é que os mandatos, neste caso, não são representativos. Ninguém vota em alguém que o represente e que governe quatro anos como bem entender, mas ao contrário, o delegado é eleito com mandato imperativo, ou seja, ele é um mero executor da vontade do povo dos bairros, que discute e delibera sobre as questões importantes. É uma democracia direta e verdadeiramente popular!

      A obra da comuna foi imensa nesse curto período: aboliu a polícia e o exército permanente, sendo substituído pelo povo em armas, ocupou as fábricas abandonadas pelos patrões, sendo estas administradas diretamente pelos trabalhadores, instituiu a igualdade entre os sexos, reduziu a jornada de trabalho, criou eleições para juizes, destinou os prédios vazios à moradia popular, aboliu a pena de morte, criou o ensino gratuito, laico e obrigatório (até então o ensino era privado e dominado pela Igreja), duplicou o salário dos professores, além de uma série de medidas sem precedentes na história.

    A Comuna contava com a participação de representantes de diversas correntes de pensamento dos trabalhadores, não sendo uma obra de nenhuma delas, mas do conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras. De todo modo, cabe destacar a atuação do grupo coletivista, os mais tarde chamados anarquistas (ainda não era usual o termo anarquista nessa época), da mesma corrente do russo Bakunin. Esse grupo teve grande influência nos acontecimentos, principalmente na organização da economia, nas medidas mais ligadas diretamente ao trabalho. Para o anarquista russo Bakunin, a Comuna é a comprovação da tese “anti-estatista”, ou seja, que o modelo de governo dos trabalhadores deve abolir o Estado e construir outra forma de organização, organizada federalmente pela base, dirigida diretamente pelo povo. No período após a queda da Comuna, foi publicado o livro “Guerra civil na França”, do revolucionário alemão Karl Marx, onde ele faz uma defesa da Comuna. Friedrich Engles, mais tarde, no prefácio de uma edição do Manifesto Comunista, afirma que a Comuna é a “ditadura do proletariado” que Marx sempre defendeu. Na visão de Bakunin, Marx está sendo oportunista, aproveitando a fama da Comuna e querendo ganhar para seu grupo os emigrados franceses da Comuna, que nesse momento, assim como ele, estão na Inglaterra. Para Bakunin, com seu poder descentralizado e horizontal, a Comuna nada tem haver com a idéia de “ditadura do proletariado” ou de “Estado proletário” desenvolvida pelo alemão, mas é justamente a sua negação. Nesse ponto concordamos com a visão do revolucionário russo, pois a tarefa dos trabalhadores não é de imitar a burguesia com sua concepção de tomada do Estado (como quando a burguesia derrubou a nobreza na Revolução Francesa de 1789), mas de criar um outro tipo de forma política que inviabilize o Estado: a Comuna.

          Outro ponto fundamental, além do protagonismo da classe trabalhadora como um todo na construção da Comuna, é a participação das mulheres trabalhadoras em todo o processo. Foram elas elemento chave na deflagração da Comuna desde o primeiro momento. Quando, temendo uma revolta popular, o governo de Versalhes tenta tomar os canhões que estão em posse dos parisienses, são elas que interpelam os soldados de Versalhes para que “não atirem nos irmãos parisienses”. Essa intervenção gerou um dos mais belos momentos da Comuna, no qual as tropas de soldados se recusam a atirar no povo, se juntam aos trabalhadores e confraternizam. Muitas delas participaram ativamente das lutas nas barricadas, mostrando tanta ou mais bravura que os homens. Louise Michel, mais tarde identificada como anarquista, chegava a usar o uniforme da Guarda Nacional (o que era uma afronta aos valores da época). Logo nos primeiros confrontos, mulheres marchavam pedindo armas para ir a Versalhes e mais tarde pelotões só de mulheres foram formados.

        A Comuna, em sua curta existência, mostrou a capacidade organizativa da classe trabalhadora, mostrou que é possível que “simples operários” tomem as rédeas de suas vidas, provou que as mulheres não são nada frágeis e que são fundamentais na luta revolucionária e contra as opressões de todo tipo. Provou que o Estado e todo seu aparato centralizado: polícia, exército regular e burocracia devem dar lugar aos trabalhadores organizados pela base, com controle social permanente sobre os “representantes”. A Comuna não é um exemplo distante e inalcançável, fruto de um passado nostálgico, mas, como no recente exemplo da Comuna de Oaxaca em 2006 no México, nos aponta que é tarefa dos trabalhadores derrubar o Estado, seja este qual for, criando um governo de novo tipo: o poder popular.

 

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