Construir o poder do povo

Construir o poder do povo2 anos da Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL)

Quando viver é lutar, o sentido passa a ser a própria vida. Quando a luta é a criação do novo, sabemos que o tempo presente é a nossa própria matéria e questão, nosso motivo e nossa força, nosso combate e nossa existência. “Viver é algo muito perigoso”, dizia um guerreiro sertanejo. Por isso, o canto sopra, por isso o rosto coberto, a mão no escudo, ombro com ombro em fileira, fogo nos olhos, mãos e pés nas pedras das calçadas e muros. Já não podemos aceitar a morte, a vida matada ou morrida.

O Estado brasileiro surgiu da guerra e é pela guerra que ele será destruído.

Em 1918, após a grande greve geral de 1917, a classe operária preparava a insurreição anarquista. Campos de concentração e massacres foram precisos para abafar temporariamente a revolta, a bandeira negra. Hoje, em 2013, a anarquia volta a ser a palavra-de-ordem de um novo mundo e de novas formas de viver. Formas de construir o comum, compartilhar o futuro, realizar o que é preciso para desfazer o que está imposto. Por todo o Brasil, desde Junho, vimos explodir um levante popular que abalou os consensos, os modelos, as imagens de pátria e de povo, e que fez as classes dominantes sentirem novamente o medo da justiça. Não a falsa “justiça” do Estado, onde ela julga e condena – o tribunal do genocídio -, mas a justiça da história, criada pelo povo, com sua alegria, sua raiva, suas memórias.

Nunca esqueceremos o ano que vivemos, os meses que passamos, as noites que duraram como séculos e que devolveram a esperança a milhões de pessoas de criar e fazer parte de uma sociedade diferente, com liberdade e igualdade. A luta é fantástica e imensa! A barricada fecha ruas, mas abrem novos caminhos, novos destinos…

No mês de Dezembro deste “ano negro”, a Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL) comemora dois anos de organização e de total entrega à estes sonhos e batalhas. Ainda estamos começando a trilhar nosso caminho, sabemos. Temos certeza que muito precisa ser feito, muita coisa precisa ser criada, transformada, e que nesta pequena estrada percorrida ainda cometemos erros e equívocos. Mas, avaliando nossa experiência neste curto período, de uma coisa temos certeza: nas lutas mais importantes travadas este ano, sempre estivemos presentes e postos pra lutar. Seja no cordão, na organização, no apoio, na linha de frente, na contenção, na ação direta, nas batalhas do dia-a-dia, nas batalhas de rua, nas caminhadas, nos piquetes, a OATL esteve presente contribuindo para o poder popular, para resistência do povo e para o fortalecimento do anarquismo. Muitos camaradas nossos foram vítimas da violência do Estado, atingidos de todas as formas. Entramos na lista de investigação policial e da Interpol como se fôssemos criminosos. Companheirxs receberam intimações em casa, processos antigos de perseguição policial foram reabertos, recebemos ameaças, fomos investigados, mas sabemos que as acusações e agressões são injustas e que se estas acontecem é porque estamos lutando e da luta não tiramos o pé. Não iremos parar diante do processo de repressão. Não conhecemos a polícia e o Estado hoje. Já nascemos e criamos nossa organização enfrentando duramente o Estado, após camaradas serem presos por ajudarem a construir a luta por moradia e após covardes despejos. Nem a cadeia, nem os processos, nem a justiça retirou nossa força e nossa paixão por um mundo novo e não seria num ano como este, quando o povo se levantou, que iríamos recuar na nossa luta. Também não aceitamos qualquer criminalização e enquadramento em leis de “organização criminosa”. Criminoso é o estado e crime é o capital, o desemprego, a exploração do trabalho, o machismo, o racismo, a homofobia, as diversas formas de preconceito e dominação. Somos uma organização que atua no movimento social e que busca na militância cotidiana em favelas, ocupações, escolas, locais de trabalho, movimentos de educação, moradia, de combate às opressões, sindicatos, ajudar a construir através de práticas libertárias – autogestão, apoio mútuo, igualdade, liberdade, ação direta, federalismo – o poder popular. Não somos criminosos e nem somos vanguarda de processo algum. Estamos apenas na luta, sendo mais uma, mais um, que acredita apenas na organização popular de base e na ação direta como forma de transformar radicalmente a sociedade. A revolução é obra do povo, não de uma organização ou de um partido.

Agradecemos também a todas as companheiras e companheiros que militam conosco no dia-a-dia, em movimentos, sindicatos, espaços de base; às pessoas que estiveram nas ruas juntas, na mesma fileira; a todas e todos que prestaram apoio nos momentos difíceis, nas delegacias, nos hospitais; quem, mesmo não sendo anarquista, acredita na solidariedade e ajuda a desmontar toda esta onda de criminalização política que o anarquismo está sofrendo e que as organizações anarquistas que estão na luta estão enfrentando.

O caminho é longo, mas o futuro é nosso.

Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL), Dezembro de 2013.

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