“Tenho quinze balas e ainda não gastei nenhuma” – outras vielas do dia 06 (Relato de um dxs companheirxs da OATL preso no ato do dia 06/02 no Rio)

Ele puxou a pistola da cintura, descarregou a arma e apontou em direção ao nosso rosto. Uma delas seria pra mim, pra ela?
Um beco na Rua K., cajueiros, Providência.
A pistola e as balas. Todxs presxs, sentados sobre a mão em frente a 8 policiais do choque. Me lembro, neste instante, do dia seguinte a invasão da UPP nesta mesma favela.
Uma vila na L. com 9 casas.
Ninguém saía na rua. Só medo.
Já esperávamos isso. Uma casa com “viciado” que cheirava na rua segurando a bíblia. Diarista. Vendedora. Atendente de Telemarketing. Desempregada. Ex-bandido. Operário. 15 crianças.
Pra eles, favelado, “gente sem vida”.
Abriram o portão como fazia o BOPE. Fuzil e nojo agora com roupa azul.
Revistaram todas as casas. Pegaram nossos nomes. Queriam droga, arma.
“Cadê S.? Se escondeu aqui?”.
“Aqui só tem trabalhador”, disse Maria.
Neste dia 06, enquanto ouvíamos o barulho das bombas, enquanto permanecia sentado sobre a mão ouvindo ele gritar na cara das companheiras, naquela casa dentro da favela, eu lembrava disso tudo.
As senhoras que se abaixavam em frente à padaria. Os tiros em todas as fachadas. O caveirão varrendo tudo até a praça.
Tentávamos escapar do cerco e voltar para a presidente Vargas. No momento em que a bomba foi atirada pelo choque dentro da central, saímos pelo portão de trás, perto do “garotinho”.
Os camelôs faziam as barricadas. Tinham razão pra se revoltar.
Foi o Estado que queimou o camelódromo e tirou seu pão.
O cheiro e o barulho eram fortes.
Corremos pela Rua K tentando voltar. Pelos dois lados o choque já havia cercado xs manifestantxs e todxs xs moradorxs, que também eram manifestantxs, entre os dois lados. As famílias abriram suas portas para abrigar as pessoas. Foi assim que paramos nessa viela, nessa casa, nesse beco, que logo depois seria invadido pelos policiais.
Nada incomum. Na favela eles nunca pediram licença para arrombar a porta, matar, roubar, “criar” pó.
Ficamos todxs acuadxs dentro da pequena casa, no final de um longo corredor, com apenas um cômodo.
Quando eles chegaram com as armas apontadas fomos todos arrancados com gritos, com terror.
Um companheiro foi agredido. Levou socos na barriga e na cabeça. Era negro. Era negro. Negro apanha.
As mãos apontaram para as mulheres. Elas são mulheres. Mulheres. Elas não podem falar.
“Cabeça baixa!”
Gritaram e agrediram o rosto de nossas companheiras.
Foi quando ele pôs todo mundo com as mãos no muro, como fazem em Bangu.
“Encosta na parede porra!. Tá todo mundo preso”.
Os mesmos e todos os xingamentos de sempre. As mesmas ameaças. A mesma tentativa de te dominar com o terror e a autoridade.
Depois da primeira revista, ficamos todxs com a mão na cabeça, como se nós estivéssemos armados e não eles. Como se nós fôssemos os bandidos e não eles.
Ao ruído daqueles berros e das agressões, sentamos sobre a mão.
Ninguém podia usar celular e receber qualquer ligação.
E o nossos telefones tocavam, chamavam…
“Onde pensam que estamos?”
Discursos. Discursos. Bosta: “Não são manifestantes, são marginais, Black bloc”.
Foi quando um deles, suando, descarregou a arma, apontou e disse: “Eu tenho quinze balas e ainda não gastei nenhuma”.
Ainda ficaríamos muito tempo sentadxs. A família que nos abrigou com medo dentro do único cômodo.
Teria outra revista. Companheira tendo que tirar a calça e ficar de short diante de 8 homens machistas que costumam espancar mulheres, torturar prostitutas, matar travestis.
Desceríamos a escada em fila com a mão na cabeça. No corredor, uma fila de policiais e cada presx dando a mão à outra ou ao outro para entrar no ônibus que estacionava.
A rua nos olhava. Saímos humilhados. Escoltados pelo choque assassino.
Entramos nós 8 dentro do ônibus em direção a alguma DP.
O calor ali dentro.
O ódio.
O direito a revolta e a certeza que o Estado é o único bandido e que ele tem que acabar.
Horas depois, a nossa prisão por “invasão de domicílio” estava cancelada.
A família que teria a casa invadida por nós se recusou a depor. Se recusou a nos entregar. Se recusou a aceitar. Negou esta PM, negou esta lei, esta prisão.
Mais tarde saberíamos: além da morte silenciada do senhor camelô, vítima da ação da PM, além do cinegrafista da Bandeirantes, vítima do confronto iniciado pela PM, todas tão duras e tristes, a favela tinha descido.
A favela da Providência. Dos mortos e vivos da Providência.
A favela do poder popular.
Segunda-feira conversaria com uma das companheiras presas e ela me falaria do medo, dos seus pesadelos.
“Ele disse que tinha quinze balas e apontou pra gente”.
E agora me lembrei disso. Resolvi escrever. Contar. Como se a palavra fosse uma bala. Como se pudéssemos, agora, apagar tudo e antecipar este mundo que será construído por ela, por aquela família, por aquela pedra, pela mãe do Caio, pelos inimigos da ordem, em nome de uma nova vida.

À C. e à favela da Providência.

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