Unificar as lutas pela base! Derrotar o fascismo e o racismo pela via da revolta popular!

durruti

 

Uma contribuição anarquista para a presente conjuntura de acirramento da luta

 

   2020, o ano que para muitos, em especial para a esquerda eleitoral, parecia o ano da “terra arrasada”, da derrota e da avalanche do avanço da extrema-direita. Contudo, a vida não se limita às eleições burguesas e o ano se inicia sob a luz das revoltas populares latino americanas no Chile, Equador e Haiti. Questionam o sistema capitalista em sua expressão mais profunda atual: o neoliberalismo. Nos E.U.A,  o levante popular negro, em meio a pandemia do coronavírus expõe ainda mais as entranhas do sistema capitalista, racista e patriarcal. A crise capitalista, aguçada ainda pela pandemia do coronavírus, desvela cada vez mais a inviabilidade desta ordem social.

   

  No Brasil, começam a pipocar as primeiras mobilizações de rua pós-pandemia. Torcidas organizadas e juventude antifascista tomam as ruas em Porto Alegre, São Paulo,Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Manaus, etc. No RJ manifestações lideradas pelo movimento negro questionam o genocídio causado pela polícia militar que assassinaram Agatha, João Pedro, Rodrigo, João Vítor, Matheus, Miguel e tantos outros e outras. O cenário parece apontar para a possibilidade de uma gradativa massificação dos atos de rua.  Nesse contexto, os movimentos populares, estudantis e sindicais debatem intensamente os rumos que a ação deve tomar. Esse texto é uma breve contribuição para esse debate, bem como para uma caracterização do governo Bolsonaro e da conjuntura que se abre no momento.

     

    Tomar as ruas contra os fascistas e superar a direita “anti-bolsonarista” de fachada

     

     Em um documento publicado em 2018 <https://terraeliberdade.org/desistir-jamais-resistir-e-derrotar-o-fascismo-para-alem-das-urnas/> já expusemos nossa avaliação do governo Bolsonaro. Trata-se de um governo de tipo neofascista, um fascismo de tipo ultraliberal que, contudo, no presente momento, gerencia uma democracia burguesa. Temos um governo fascista e não um regime fascista!  Que tenta, por dentro da democracia burguesa,passar medidas “fascistizantes” visando militarizar o governo, bem como controlar de forma centralizada as instituições (como no recente caso da intervenção na polícia federal, entre outros). 

            

     Esse governo possui ainda, como base de apoio, uma parcela da burguesia-empresarial, aqui merece destaque o setor financeiro e do agronegócio, bem como das forças armadas e da polícia militar/ milícias. No seio da classe trabalhadora, tem como principal ponto de apoio o conservadorismo neopentecostal liberal.

        

   Contudo, o apoio dessa burguesia-empresarial à Bolsonaro foi apenas um apoio pontual, visto em determinado contexto o viu como o único com força eleitoral para tocar as reformas do capital, bem como derrotar o modelo de conciliação de classes, já não mais interessante depois da crise de 2008.

      

    Desse modo, essa mesma burguesia, já começa a migrar para uma posição de desgaste do governo, visando construir uma gerência “liberal tradicional” para 2022 ou até mesmo para 2020 pela via do impeachment. Deste modo, uma briga intra-burguesa (entre o projeto fascista “estilo bolsonarista” e  o projeto “liberal tradicional “estilo PSDB”) se  instaura, disputando os rumos do projeto da classe dominante no  Brasil.Assim sendo, é preciso estarmos atentos a esse oportunismo desses setores burgueses “anti bolsonaristas de última hora” e a constante tentativa de cooptação de setores da esquerda pela política de “frente popular” com a burguesia.

       

       Além disso, é importante a caracterização do bolsonarismo como fascismo, pois aponta para a necessidade de um combate enérgico contra sua base organizada fascista (não confundir com seus eleitores!). Deste modo, tal qual a Frente Única Antifascista brasileira de 1934, precisamos articular a autodefesa da classe. Não permitir o monopólio dos fascistas das ruas e nem mesmo deixar que as lutas sejam descaracterizadas e tenham suas pautas sequestradas para dar lugar a palanques eleitorais.

       

     Temos bem definido o motivo de estarmos indo para as ruas: O fim do genocídio do povo preto pelo Estado e contra o fascismo, que se institucionaliza a cada dia. Porém uma ressalva é importante, durante o período de pandemia, a esquerda precisa se diferenciar dos negacionistas fascistas e adotar nos atos de rua, dentro do possível, medidas de proteção à saúde (fornecendo aos presentes, equipamentos de proteção individual, como máscaras e álcool em gel,mantendo distância de 2 metros e orientando as pessoas de grupo de risco a ficar em casa). 

     

  Desse modo, se faz necessário também repensar e elaborar novas estratégias para as manifestações,como por exemplo, organizar pequenas ações em vários pontos estratégicos da cidade, de modo que seja possível manter as medidas sanitárias e ainda assim, causar o impacto desejado, afinal, devemos também ter a responsabilidade por nossa saúde e pelos nossos.

       

       Em suma, esse fascismo gerente da democracia burguesa precisa ser combatido em duas frentes táticas para barrar desde já qualquer possibilidade de fechamento do regime e em outra construindo um projeto socialista junto ao povo. Uma imediata e outra de mais longo prazo:

           

  1. a) Criação de comitês de auto-defesa antifascista e unificação pela base de uma frenteantifascista não eleitoral e com independência de classe, como já defendemos em outro texto <https://terraeliberdade.org/desistir-jamais-resistir-e-derrotar-o-fascismo-para-alem-das-urnas/>. Comitês locais que sirvam como pontos de mobilização, organização e autodefesa, mas também, que se relacionem em rede para que assim, não sejam pontos isolados, mas sim parte de um grande organismo de poder popular, revolucionário.

 

  1. b) Trabalho de base junto ao povo, nas favelas e periferias para disputar palmo-a-palmo um projeto de organização popular contra o projeto das neopentecostais conservadoras liberais,atuando na mobilização de massas e organização para a revolta popular, apontando sempre para um projeto político revolucionário e não atuando como ONGs assistencialistas, mas sim, como organismos de poder popular.

 

 Antifascismo no seio do povo sim! Frente ampla com a burguesia não!

 

   O antifascismo de modo algum é monopólio deste ou daquele grupo político e queremos que ele se generalize. Nesse sentido, saudamos a juventude e setores da classe trabalhadora que tem manifestado sua oposição ao governo, seja nas ruas e mesmo nas redes sociais. Contudo, apontamos que a luta antifascista não é apenas uma dimensão estética, ou uma oposição momentânea ou eleitoral a este governo específico, mas um trabalho político árduo e cotidiano junto à classe trabalhadora. Só assim será possível extirpar o fascismo e o conservadorismo do seio de nosso povo, bem como seus sustentáculos.

   

     No mesmo sentido, saudamos  a juventude combatente, que no último domingo enfrentou bravamente os fascistas nas ruas (com todos seus signos racistas e neonazistas). Contudo, apontamos que é preciso estar atento para que o antifascismo não caia em uma cultura ganguista, apontando sempre para o antifascismo como uma luta política militante e cotidiana: classista, antirracista, antissexista e anti-lgbtfóbica. Uma cultura antifascista precisa ter como base os trabalhadores da cidade mais precarizados, os camponeses e emergir no seio do povo!

     

     No entanto, é importante não cair na falácia liberal de “liberdade de expressão” para os fascistas, pois foi essa política, de conivência liberal e social-democrata que historicamente alimentou o fascismo. Ainda que, no presente momento, não haja condições e correlação de forças para que ocorra um golpe de tipo fascista, é preciso desde já desmantelar tais organizações e não permitir que se sintam em uma posição confortável para pregar o racismo, o fascismo e o golpe de estado abertamente. Não há de se permitir que se organizem e cresçam à tal ponto que possam se constituir enquanto regime e nem mesmo que penetrem cada vez mais na malha da democracia burguesa e a “fascistizem”. 

     

     Por outro lado, estamos atentos à perspectiva oportunista da esquerda eleitoral que nos últimos tempos tem aderido a tese do fascismo, contudo, com uma política de“enfrentamento” que historicamente sempre levou a classe trabalhadora à derrota. Trata-se da  política de “frente ampla” com a burguesia.

      

      A tese central é de que o fascismo é algo tão ruim que vale uma aliança tática eleitoral com qualquer um que se diga antifascista, até mesmo setores da burguesia. Essa política tem sido apontada ultimamente por setores do PSOL, em especial os liderados por Guilherme Boulos e Marcelo Freixo.

     

       A política de “frente ampla”, tal qual na Revolução Espanhola e em tanto outros exemplos, sempre deixou a classe trabalhadora refém da burguesia, sabotou as iniciativas mais radicais da  classe, rebaixou suas pautas e permitiu a vitória da reação.

    Sendo assim, não devemos nos iludir! Setores da burguesia tradicional, liderados pelo PSDB ou toda sorte de partidos burgueses entram em frentes assim com o intuito de frear as lutas do povo e a luta antifascista.

       

        Serão os mesmos que, quando a maré virar, novamente vão aderir a política fascista, como fizeram em 2018 e sempre farão.  Desse modo, assim como dizia Durruti “Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimi-lo. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios”. Não nos iludamos, aos liberais interessa manter o fascismo sempre vivo e por perto, para usá-lo como instrumento de classe.

       

            No espírito do levante popular negro de 2020, de junho de 2013 e da Revoada dos Galinhas Verdes de 1934: somente a ação direta pode derrotar o fascismo nas ruas para além das urnas!

            

            Abaixo o fascismo! Não à frente eleitoreira com a burguesia!

        Viva a revolta popular! Pelo fim do genocídio do povo preto! Pelo fim das polícias! Autodefesa do povo! 

 

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